Nós éramos um lindo jardim em flor,
Primavera viva no peito da gente,
Cores dançando ao redor do amor,
Perfume doce, intenso e envolvente.
Regávamos sonhos todas as manhãs,
Com promessas feitas ao pôr do sol,
Nossos risos eram águas mansas,
Fecundando o chão do arrebol.
Mas de repente a seca chegou,
Silenciosa, fria, sem avisar,
O vento quente nos atravessou
E começou tudo a ressecar.
As folhas, antes verdes e vivas,
Caíram cansadas pelo chão,
As pétalas, frágeis e sensíveis,
Murcharam na palma da solidão.
O jardim de flores não resistiu,
O brilho do amor se apagou,
O que era abrigo se partiu,
O que era eterno se calou.
E onde havia perfume e cor,
Hoje há silêncio e desatino,
Ficaram nas hastes apenas espinhos,
Guardando a dor do que foi destino.
Porque quando o amor perde a água,
E o cuidado deixa de existir,
Até o mais belo dos jardins
Pode secar, e desistir.
Nil Gonçalves
Um Eterno Sonhador